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Minas Gerais

Contágio por chikungunya se alastra e vira novo desafio em Minas

Combate ao mosquito Aedes aegypti, que além da chikungunya transmite dengue e zika: virose em expansão tem sérias repercussões na saúde e previdência (foto: Edésio Ferreira/EM/DA Press)

Estado, ainda às voltas com o maior surto da história de Febre Amarela, tem primeira morte suspeita pela doença, cujo número de casos, em 70 dias, já é 358% maior do que em 2016.

Enquanto as atenções de autoridades sanitárias e da população mineira se voltam para a Febre Amarela Silvestre, que já registra 110 mortes no estado neste ano, outra doença explode silenciosamente, sem encontrar, na avaliação de especialistas, resposta adequada. Ontem, a Secretaria de Estado de Saúde (SES) divulgou a primeira morte investigada por febre Chikungunya na história de Minas, em meio à disparada do número de casos notificados da doença. Neste ano, até a última segunda-feira, foram 2.296 registros de Chikungunya – número que já é mais de quatro vezes maior que o contabilizado ao longo de todo o ano de 2016, quando houve 501 notificações e pela primeira vez verificaram-se casos autóctones da doença – ou seja, de contaminação dentro do próprio estado. Sem vacina e com controle precário do mosquito Aedes aegypti, que transmite a doença e também a dengue, a Zika e a Febre Amarela, especialistas projetam um cenário de risco, com ameaça de sérios impactos nos serviços de saúde e de previdência, já sobrecarregados.

Segundo um dos diretores da Sociedade Mineira de Infectologia, o médico Carlos Starling, diferentemente das demais doenças transmitidas pelo Aedes, a Chikungunya tem um grande número de casos que evolui para a forma crônica. Além disso, é elevado o percentual de pacientes que precisam se afastar do trabalho e das atividades domésticas por impactos da virose. “Entre 10% e 20% dos pacientes desenvolvem dor aguda, que se comporta como reumatismo e acomete músculos e articulações. Em algumas pessoas, os sintomas podem durar entre dois e três meses e há um número alto de infectados que fica doente por até três anos”, afirma o especialista.

Para o médico, com consequências tão graves, os serviços de saúde serão ainda mais cobrados. “A assistência aos pacientes vai exigir muita reabilitação, fisioterapia, mais leitos e outros serviços que não estão sendo planejados na medida adequada para essa doença, que tem impactos social e econômico gigantescos. Com os afastamentos do trabalho, outro problema será a concessão de aposentadorias em um momento já de crise na Previdência”, ressalta.

De acordo com Carlos Starling, o aumento expressivo dos casos já era previsto desde o ano passado, já que a população estaria exposta a um agente para o qual ainda não tem imunidade. “As pessoas ainda não tinham entrado em contato com o vírus que está circulante. E, infelizmente, a tendência é de aumento até o fim do ano e também nos anos seguintes, com crescimento exponencial”, diz.

Para piorar, outro fator preocupante é a região em que a doença se concentra no estado: os municípios que mais sofrem são os dos vales dos rios Doce, Jequitinhonha e Mucuri. A cidade com o maior número de casos prováveis é Governador Valadares, com 1.043 notificações, seguida de Teófilo Otoni, com 427, Conselheiro Pena (280), Pedra Azul (86), Aimorés (72), Medina (66) e Almenara (61). Belo Horizonte tem 31 casos prováveis. “Essas são áreas já carentes de recursos de saúde, que sofrem com deficiência de instalações, equipamentos, profissionais e leitos. A situação só tende a piorar”, avalia o representante da Sociedade Mineira de Infectologia.

Ele lembra ainda que a incidência da doença nessas regiões, bem como seu aumento elevado em todo o estado, são fatores que exigem olhar especial do governo do estado e das prefeituras. “Boa parte desses pacientes do interior vai vir para Belo Horizonte, sobrecarregar hospitais da capital. E isso tudo está ocorrendo em um momento de muita instabilidade financeira no país, o que exige planejamento”, afirma. Segundo o médico, os municípios já deveriam estar se preparando para lidar com a nova demanda. “É tempo de preparar equipes de reumatologia, infectologia e fisioterapia. Mas os serviços não estão sendo montados na medida necessária porque, de modo geral, o planejamento nos serviços públicos vem durante o apagar de incêndio, no olho do furacão.”

A SES confirmou, por meio de nota, que o aumento no número de casos de Chikungunya já era previsto, uma vez que a doença nunca havia circulado no estado até 2016. Sobre as atuais áreas prioritárias em Minas – Governador Valadares e Teófilo Otoni –, a SES explicou que o plano de contingência da pasta prevê apoio para implantação de unidades de hidratação, fornecimento extra de medicamentos e insumos para atendimento. E informou ainda que está organizando treinamento dos profissionais de saúde, por meio de teleconferências e envio de médicos para capacitação em serviço.

Outras ações de controle permanente englobam, segundo a secretaria, campanhas de mobilização para controle do Aedes, além da implantação Comitê Gestor Estadual de Políticas de Enfrentamento à Dengue, Chikungunya e Zika, lançado em dezembro do último ano, com a participação de diversos órgãos e entidades do governo de Minas. A atuação intersetorial do grupo, em diferentes frentes e dentro da competência de cada instituição, faz parte da estratégia para enfrentamento ao mosquito de forma intersetorial, diz a pasta. Sobre a primeira morte suspeita, a SES não divulgou dados relativos ao paciente, sob argumento de que o caso ainda está em investigação.

 

Febre amarela avança e já tem 1.090 registros

O número de casos de febre amarela silvestre segue avançando em Minas. Dados da Secretaria de Estado de Saúde (SES) mostram que já são 1.090 notificações da doença registradas até ontem, média de 15 por dia. Exames confirmaram a doença em 310 dos casos e 57 foram descartados. Segundo o balanço epidemiológico divulgado pela pasta ontem, são 110 óbitos registrados pela doença e outras 75 ainda sob análise por suspeita da virose. Esse é o pior surto da história do país registrado pelo Ministério da Saúde. A situação mais grave ocorre nos vales dos rios Doce e Mucuri. Ladainha lidera o número de casos confirmados, com 35 moradores com diagnóstico positivo para a doença e 73 casos ainda sob investigação. Novo Cruzeiro está em segundo lugar com 27 casos confirmados e outros 68 em investigação. Caratinga vem em seguida, com 25 confirmações e outros 126 casos sendo apurados.

Via: EM

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