Cotidiano

Queimadas urbanas: poluição e crime ambiental justificados pela herança cultural

O domínio do fogo pelo homem permitiu que a evolução humana desse um salto, pois esta nova ferramenta propiciou o aquecimento dos locais de instalação ou moradia dos nossos ancestrais transformando as trevas noturnas em ambientes com mais visibilidade, além de modificar a dura proteína animal de caça em alimento macio, saboroso, com boa digestibilidade permitindo que o tempo e a energia, anteriormente usados para mastigação e deglutição, poderiam ser melhor aproveitados para outras funções como a evolução cerebral e melhoria da qualidade de vida.

Como resquício evolutivo, ainda ficamos magnetizados pelas chamas e atualmente temos queimado tudo que pode ser incinerado pelas cidades como se fosse uma herança cultural maligna pois, se a população entendesse os reflexos negativos desta prática, repensaria imediatamente na direção de eliminá-la.

Infelizmente já estamos acostumados com as queimadas urbanas que incomodam, poluem e destroem matas e vidas. Além de intoxicar quem põe fogo, causam inúmeros problemas à vizinhança. Para crianças, idosos e pessoas com problemas respiratórios a gravidade é multiplicada. Esse costume ancestral não se limita somente à queima de folhas nas calçadas e quintais. Tem gente que não pode ver um mato seco em terrenos e lixo amontoado que já vai colocando fogo. Muitos incêndios maiores podem ser iniciados a partir desta prática considerada corriqueira. Não há vantagens, somente prejuízo e não devemos pensar que isto atinge somente humanos. A flora e fauna (inclusive animais domésticos) sofrem severamente por serem mais sensíveis à fumaça.

Uma prática bastante comum em locais abertos é a queima de resíduos sólidos (lixo) descartados ou vegetação seca em áreas urbanas com o intuito de limpeza ou diminuição de volume do material que pode liberar inúmeras substâncias tóxicas e materiais particulados com potencial de dispersão. Dependendo do tipo de material incinerado, além dos particulados, vários metais pesados podem ser dispersados como: mercúrio (Hg), chumbo (Pb), cádmio (Cd), crômio (Cr), arsênio (As), gás carbônico(CO2), monóxido de carbono(CO), gases nitrogenados (NO e NO2), compostos orgânicos voláteis e semi-voláteis, hidrocarbonetos policíclicos aromáticos, dioxinas e furanos. Todas estas substâncias tem toxicidade elevada e podem ser transportadas por grandes distâncias e, na maioria das vezes, o destino final é o solo que também será impactado.

Segundo o artigo 225 da Constituição Brasileira, “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”. “As condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas, independentemente da obrigação de reparar os danos causados”. Queimar qualquer tipo de resíduo que resulte em poluição em área urbana também é um crime previsto na Lei de Crimes Ambientais (9605/98) cuja pena pode ser prisão pelo período de 1 a 5 anos. Muitos municípios tem legislações mais específicas sobre o tema para que possam autuar o cidadão.

Se o fato de cometer um crime ambiental não for suficiente para sensibilizar as pessoas, vale salientar que os efeitos da fumaça e fuligem produzidos por estas queimadas podem causar problemas de saúde como intoxicação, acidente vascular cerebral (AVC), desordens cardiovasculares, enfisema pulmonar, asma, conjuntivite, bronquite, irritação dos olhos e garganta, tosse, falta de ar, nariz entupido, vermelhidão e alergia na pele, além de contribuir para o efeito estufa e aumentar ainda mais os efeitos negativos provocados pela baixa umidade do ar nos períodos de seca. Se houver fuligem, soma-se o gasto de água (geralmente potável) para a limpeza.

Os malefícios são tão grandes que as vantagens evolutivas humanas da descoberta do fogo descrita no início do texto se perdem quando intoxicamos o próximo e a nós mesmos através da fumaça gerada a partir da queima “inocente” das folhas varridas de casa ou no mato do terreno do vizinho que estava incomodando.

A mudança de atitude só acontece quando compreendemos que podemos eliminar costumes que nos prejudicam. Deste modo, evoluiremos como cidadãos conscientes dos deveres e desvincularemos a prática das queimadas de uma herança cultural. É um processo longo que somente poderá ter sucesso através de Educação Ambiental e em Saúde Pública nos níveis formal (instituições de ensino) e não formal (empresas, associações de moradores, cooperativas, etc.). O poder público com seu potencial de mobilização social tem um papel de destaque, mas no final das contas a responsabilidade é de cada um de nós.

Sem sombra de dúvidas, sob a constituição do nosso país temos muitos direitos, mas devemos nos lembrar que também temos muitos deveres e, dentre estes, temos aquele de não queimar nenhum material ou resíduo, afinal de contas, “todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida…”

Prof. Dr. Guilherme Garcia da Silveira

Curso de Ciências Biológicas

ICENP/UFU – Campus Ituiutaba

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