Política

Minas Gerais teve 1.531 presos políticos durante ditadura militar

Relatório traz diversas imagens de vítimas da ditadura militar, mortas ou desaparecidas no território mineiro (Foto: Reprodução)

De Minas Gerais partiram as primeiras tropas militares para o golpe de 1964. Se o Estado foi protagonista na derrubada de João Goulart, também teve um importante papel na resistência à ditadura e, consequentemente, nos atos de repressão. O relatório final da Comissão da Verdade em Minas Gerais (Covemg), que vai ser lançado nesta quarta-feira (13), somente em seu primeiro volume, detalha mortes e desaparecimentos forçados de 17 militantes no Estado e o assassinato e “sumiço” de 49 mineiros pelo país, além de identificar 1.531 presos políticos em Minas.

Esses números se transformaram em histórias nos relatos e em documentos coletados pelos pesquisadores durante quatro anos. Exemplo disso é o jornalista Flávio Ferreira da Silva. Ele era prefeito de Barreiro Grande, atual Três Marias, quando houve o golpe militar. Por ter participado de um evento com o presidente João Goulart, foi considerado subversivo e, por isso, foi cassado, preso e torturado na base aérea de Lagoa Santa.

Após ser libertado, respondeu a processo por subversão, mas foi inocentado pelos próprios militares. Segundo familiares, o ex-prefeito nunca se recuperou do trauma de ter tido sua carreira política interrompida com pancadas na cabeça e choques elétricos. Por isso, passou a ter problemas psicológicos. Dez anos depois, ele matou a mulher e suicidou em seguida.

Hoje, ele é reconhecido como mais uma das vítimas da ditadura. “Foram várias as formas de tortura aplicadas, e é legítimo acrescentar que algumas foram decisivas, deixando sequelas mentais pelo resto dos poucos anos de vida que lhe restaram”, contou a filha do político, Glaucy, em depoimento à Covemg.

O caso de Flávio não é isolado. Terceiro motivo mais recorrente de falecimentos em vítimas do regime militar, segundo o documento, as sequelas psicológicas e físicas deixadas pela tortura são responsáveis por 10% do total de mortes ou desaparecimentos forçados causados pelos militares no Estado.

O militante mineiro Juarez Guimarães fez um pacto com a mulher, Maria do Carmo de Brito, que, se fosse preso pelos militares, se mataria. Em 1970, durante perseguição no Rio de Janeiro, ele deu um tiro no ouvido. Maria, conhecida como Dora, foi presa, torturada e exilada no Chile após ser libertada com resgate do sequestro do embaixador da Suíça. No exílio, morando na Alemanha, Dora matou-se após se jogar na linha do trem em 1976.

Traumas. A tortura durante o regime militar deixou marcas nas vítimas que perduram até hoje. Em um dos relatos, Délio de Oliveira Fantini, que diz ser o preso político mais novo do Estado, conta que teve todo o corpo queimado por choques e cigarros; os dentes da frente foram arrancados; teve uma lesão no crânio e fraturas no nariz, em vários ossos dos pés e no osso rádio (antebraço) – sendo necessária a colocação de uma haste. “Quer dizer, não sei se foi sorte ou azar esse chute na cabeça, pois a partir daí houve a necessidade de ser deslocado para o pronto-socorro”, contou.

Em Maria Dalce Ricas, então estudante de direito da UFMG que ficou presa no prédio do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), as marcas da violência ainda são visíveis. “Fisicamente, ainda tenho marcas nos dedos mínimos dos pés e das mãos, onde o fio elétrico era enrolado, e a marca nos pulsos. Até cerca de cinco anos atrás tinha uma insensibilidade parcial no pé e não suportava sapatos fechados por muito tempo”, detalha.

No caso de outro preso em Minas, o documento mostra que uma das sequelas foi a esterilidade, que o impediu de ter filhos, e as hemorroidas decorrentes do fato de os torturadores terem introduzido um cabo de vassoura em seu ânus.

Evento. O relatório vai ser lançado nesta quarta-feira (13) às 9h30, em audiência na Assembleia Legislativa de Minas. Às 16h30, o documento será entregue aos representantes dos Três Poderes, no Palácio da Liberdade.

RECOMENDAÇÕES

Documento. Com 1.781 páginas e dividido em cinco volumes, o relatório final da Comissão da Verdade em Minas Gerais (Covemg) detalha fatos que ocorreram na ditadura militar, entre 1964 e 1988, e também traz uma série de recomendações aos Três Poderes.

Ações. Entre elas está alteração dos nomes dos locais públicos que façam menção a responsáveis por violações de direitos humanos e a substituição por nomes de vítimas do regime militar.

Decreto. Na última semana, o governador de Minas, Fernando Pimentel (PT), decidiu prorrogar até 7 de fevereiro de 2018 os trabalhos do colegiado, criado em 2013.

Relatório cita 125 torturadores

O relatório da Comissão da Verdade em Minas Gerais (Covemg) aponta que nos depoimentos das vítimas da ditadura no Estado foram identificados 125 torturadores. Cinco deles são citados por mais de 60 vezes. O nome do coronel Hilton Paula da Cunha Portela é o mais recorrente nos relatos. Ele serviu no 12º Regimento de Infantaria do Exército em Belo Horizonte, entre os anos de 1969 e 1970.

Um dos trechos do relatório aponta que, além de usar pau de arara e afogamentos, ele esbofeteava presos até quebrar os dentes e mandava arrancar as unhas. “(Ele) também usava a técnica de ameaçar de morte os familiares dos torturados. Obrigava mulheres presas a desfilar nuas diante dos torturadores e espremia seus mamilos até sangrar para, em seguida, aplicar choques elétricos ligando os fios nos seios feridos”, diz o documento.

Entre os 98 locais utilizados para tortura e repressão, se destacam o Dops, localizado na avenida Afonso Pena, no centro da capital mineira, onde hoje funciona o Departamento de Investigação Antidrogas da Polícia Civil, e o presídio de Linhares, em Juiz de Fora.

Foi do presídio da Zona da Mata que militantes dos grupos de resistência Colina e Corrente conseguiram enviar cartas com os relatos de tortura sofridas pelos presos políticos. Um dos que assinaram as Cartas de Linhares foi o ex-prefeito de Belo Horizonte Marcio Lacerda (PSB). Também estiveram presos em Linhares o governador de Minas, Fernando Pimentel (PT), e a ex-presidente Dilma Rousseff (PT).

O coordenador do colegiado, Robson Sávio Reis Souza, diz que esse relatório não é uma entrega ao mundo oficial ou uma tese de doutorado para uma gaveta. “Esperamos que, em posse desse material, a sociedade possa avaliar esse trabalho, aprofundá-lo e cobrar das autoridades públicas e Poderes formas de mitigação de violação de direitos humanos no presente”, afirmou.

Fonte: O TEMPO

 

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