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Técnica ‘lê’ pensamento de pessoas com paralisia

Técnica ‘lê’ pensamento de pessoas com paralisia

04/02/2017 12h00 Atualizada há 4 anos
Por: Adelino Júnior
GENEBRA, SUÍÇA. Uma nova tecnologia de interface cérebro-máquina promete revolucionar a vida de pessoas que têm síndrome do encarceramento (Locked-In Syndrome, ou LIS, em inglês) – transtorno neurológico caracterizado pela paralisia completa dos músculos, embora os pacientes preservem a consciência e o movimento dos olhos. Cientistas do Centro Wyss para Bio e Neuroengenharia, em Genebra, na Suíça, desenvolveram uma interface não invasiva que detectou as respostas dos pacientes com LIS a perguntas faladas, medindo as mudanças nos níveis de oxigênio no sangue do cérebro. Eles tiveram a atividade cerebral medida pela associação de dois testes: espectroscopia no infravermelho próximo e eletroencefalografia. O experimento, realizado com quatro pessoas com o transtorno, foi descrito na edição desta semana da revista “Plos Biology”. Os resultados derrubam teorias anteriores que postulam que os pacientes com LIS não têm o pensamento voltado para objetivos necessários. Dessa forma, mesmo com uma interface cérebro-computador, eles seriam incapazes de se comunicar. Os pesquisadores fizeram perguntas pessoais com respostas conhecidas e perguntas abertas que precisavam de respostas “sim” ou “não”, incluindo: “O nome do seu marido é Joaquim?” e “Você está feliz?”. As famílias também puderam sugerir perguntas específicas para submeter aos parentes paralisados. Eles descobriram que as perguntas suscitavam respostas corretas em 70% dos ensaios. “São resultados impressionantes, que derrubam minha própria teoria de que as pessoas com LIS não são capazes de se comunicar”, conta o autor-chefe do estudo, Niels Birbaumer, do Centro Wyss. “Os quatro pacientes foram capazes de responder a questões pessoais, usando seus próprios pensamentos”, completou. Qualidade de vida. A pergunta “Você está feliz?” resultou em uma unânime e consistente resposta “sim” ao longo das semanas de questionamento. “Ficamos inicialmente surpresos com as respostas positivas quando questionamos os pacientes sobre sua qualidade de vida. Todos aceitaram a ventilação artificial quando a respiração se tornou impossível. O que observamos é que, desde que recebam cuidados satisfatórios em casa, eles acham aceitável sua qualidade de vida”, afirma o cientista. Segundo Birbaumer, o próximo passo da pesquisa será desenvolver um método para que os pacientes possam selecionar letras só com o pensamento para formar palavras e frases com a ajuda da interface cérebro-máquina. O pesquisador destaca ainda os planos futuros para outras aplicações da tecnologia. “Restaurar a comunicação para pacientes com LIS é um primeiro passo crucial para o desafio de fazê-los recuperar o movimento. O Wyss planeja basear-se nos resultados desse estudo para desenvolver uma tecnologia clinicamente útil para pacientes que sofreram males como Acidente Vascular Cerebral (AVC) ou lesão da medula espinhal”, afirma Birbaumer. Casamento ‘Mario’. Uma família pediu que fosse perguntado a um dos participantes se ele concordaria que sua filha se casasse com o namorado, Mario. A resposta foi “não” em 90% das vezes.

Lesões cerebrais e esclerose podem dar origem à síndrome

GENEBRA. A síndrome do encarceramento, ou Locked-In Syndrome (LIS, em inglês), é uma doença neurológica rara, em que ocorre paralisia de todos os músculos do corpo, com exceção daqueles que controlam o movimento dos olhos ou das pálpebras. O paciente fica preso no próprio corpo, sem conseguir se movimentar ou se comunicar, apesar de manter a atividade intelectual. As causas da síndrome podem ser lesões cerebrais traumáticas, excesso ou erro de dosagem de medicamentos, Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) – como no caso dos participantes do estudo suíço –, traumatismos cranianos, meningite, entre outras. Na síndrome, as informações que o cérebro emite para o corpo não são captadas pelas fibras musculares, e o corpo não responde às ordens. Não há cura, porém existem procedimentos que podem ajudar a melhorar a qualidade de vida dos pacientes. Via: O Tempo
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