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Mortes de estudantes alertam para excesso de cobrança e medo do fracasso

Mortes de estudantes alertam para excesso de cobrança e medo do fracasso

30/11/2017 10h46 Atualizada há 3 anos
Por: R. A. C. O.
O excesso de carga horária, a competição pela residência, o excesso de conteúdo e a necessidade de lidar com o sofrimento humano, aliados ao alto grau de exigência dos próprios estudantes, são gatilhos que têm feito alunos de medicina que apresentam predisposição a algum sofrimento psíquico a desenvolver quadros de depressão ou até a atitudes extremas. A constatação é da coordenadora do Núcleo de Apoio Psicopedagógico aos Estudantes da Faculdade de Medicina (Napem) da UFMG, Maria Mônica Ribeiro. O assunto voltou a preocupar sobretudo o meio acadêmico e as famílias dos estudantes depois que um aluno do primeiro período de medicina da Faculdade de Minas Gerais (Faminas) foi encontrado morto em sua casa, na terça-feira, aparentemente em um caso de suicídio. Foi o segundo episódio do tipo na instituição em 10 dias, sendo que alunos relataram ter havido pelo menos outras cinco situações em que universitários adotaram atitudes extremas. Nesta semana, a morte do jovem ocorreu justamente na época de provas finais e causou grande reação nas redes sociais de todo o país, com cobrança de mais estrutura e alcance dos programas de acompanhamento psíquico para alunos, especialmente os futuros médicos. O corpo do jovem foi enterrado ontem, no Cemitério Bosque da Esperança, em BH. Nas redes sociais, circularam posts cobrando a redução das exigências em várias instituições que têm o curso de medicina. Nos posts, frases como: “Não é normal dormir menos de cinco horas por dia por causa da faculdade”; “Não é normal desenvolver insônia por causa da faculdade”; “Não é normal que a faculdade se torne gatilho para a ansiedade”. De acordo com a coordenadora do Napem/UFMG, as famílias, os professores e os colegas devem estar sempre atentos às mudanças de comportamento da pessoa. “Isolamento, falta de compromisso com as atividades, abuso de álcool e de drogas, desinteresse pelo curso, choro fácil, comportamento inadequado com colegas, professores e pacientes são sinais de alerta para sofrimento psíquico”, destaca Maria Mônica Ribeiro. “A sinalização sobre a intenção de acabar com a própria vida deve ser sempre levada a sério, e a pessoa deve ser cuidada e levada para tratamento.” Na Faminas, estudantes relatam clima de cobranças considerado excessivo por alguns. “Uma colega procurou a coordenação para pedir ajuda. Disse que estava tendo dificuldades e até tomava medicamentos para a ansiedade. A resposta foi que seria normal alunos de medicina terem depressão e ansiedade. Se a pessoa não aguentasse deveria procurar outro curso”, diz uma aluna do quarto período de medicina, que não quis se identificar por medo de sofrer retaliações. A aluna Ana Luiza Mendes, de 22 anos, do sexto período de medicina da Faminas, concorda que o curso é mais exigente que outros e que isso afeta estudantes com quadros como depressão, por exemplo, mas acredita que o principal é que haja um acompanhamento eficiente pela instituição. “O curso tem mesmo uma carga mais pesada, não apenas na Faminas, mas precisa ter mesmo. Afinal, vamos cuidar de vidas humanas. Por isso o importante é que haja esse acompanhamento.” Em nota, a Faminas informou que para apoiar os estudantes oferece serviços como o Núcleo de Atendimento Psicopedagógico (NAP), “que promove atendimento psicológico a alunos de todos os cursos, funcionando com horários individualmente agendados”. Para questões relacionadas a fé e espiritualidade, há o projeto Pastoral Universitária e o projeto Escutatória, com terapias em grupo acompanhadas por um médico psiquiatra e psicólogos. O incentivo ao esporte e ao lazer também é uma iniciativa de apoio aos estudantes, sustenta a entidade. Contudo, uma estudante do quarto período afirma que tais programas não funcionam a contento. “Temos um psicólogo para a faculdade inteira. É impossível marcar uma hora”, afirma ela, criticando também o alcance das iniciativas de apoio aos esportes. De luto, a instituição informou, ainda, que “estuda novas possibilidades de apoio aos alunos, familiares e profissionais”. Ainda em nota, a Faminas acrescentou que seu Núcleo de Apoio Psicopedagógico funciona todos os dias da semana, com 40 horas de atendimentos semanais. “Desde o início do funcionamento, jamais deixou de atender um aluno.” Para o curso de medicina, a instituição informa custear uma quadra de esportes na Avenida Vilarinho, assim como a mensalidade de condomínio para 80 alunos no Centro Esportivo Universitário da UFMG. QUADRO GERAL A pressão que afeta estudantes de medicina está longe de ser exclusividade da Faminas. Na Faculdade de Medicina da UFMG, o Napem foi fundado em 2004, uma vez que sofrimento psíquico era observado em muitos dos que buscavam trancamentos de matrículas. “Esse sofrimento nem sempre era diretamente relacionado ao curso, sendo importante lembrar que a maioria dos estudantes são jovens e a passagem para a vida adulta traz muitos desafios”, observa a coordenadora do núcleo. Em 2016, o serviço teve mais de 600 inscrições, ou média superior a 50 por mês, se considerados os 12 meses. Ainda assim, no fim do ano passado, 70 universitários continuavam na fila de espera. Hoje, o Napem atende aos cursos de fonoaudiologia, medicina e tecnologia em radiologia. Conta com equipe técnica constituída por psicólogos e psiquiatras. A procura é por demanda voluntária do estudante. “Muitas vezes, professores, colegas, a escuta acadêmica, percebem o sofrimento do estudante e sugerem que ele busque ajuda”, afirma Ribeiro. “Não podemos esquecer que vivemos em uma sociedade que está adoecida por individualismo, solidão, violência, abuso de drogas e outros problemas”, destaca. No início do ano, a UFMG registrou dois suicídios em cursos diferentes, nenhum deles na medicina. Na Universidade de São Paulo (USP), o registro de seis estudantes que tentaram atitudes extremas no início do ano trouxe alerta e comoção à instituição. Pesquisa de 2015 da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, mostrou que 25% dos alunos de medicina apresentavam sintomas de depressão ou a própria doença, que é uma das condições que levam ao suicídio. Essa porcentagem representa taxa até cinco vezes maior que a de pessoas da mesma idade com a doença. Naquele país,  estima-se que 400 médicos tirem a própria vida por ano. (Com Junia Oliveira).    

Fique alerta

Veja como lidar com estudantes que manifestam sofrimento psicológico e tendência a atitudes extremas Sinais de perigo » Desilusão. Demonstrações de falta de motivos para viver » Queixas de fardo muito pesado e sentimento de clausura » Aumento do uso de drogas lícitas e ilícitas » Insônia » Isolamento » Demonstrações de descontrole emocional frequentes e extremas Como se aproximar » Procure saber o que a pessoa tem passado e como está se sentindo » O diálogo deve ser aberto, respeitoso, empático e compreensivo » Não fale muito sobre si mesmo nem ofereça soluções simples ou desmereça os problemas da pessoa » A conversa deve ser em local tranquilo, sem pressa » Não se deve rechaçar as tendências da pessoa com problemas, nem expressar choque ou reprimi-la, com frases como: “Não acredito que você está pensando nisso” Encaminhamento profissional » Se a pessoa se sentir à vontade, pode-se encaminhá-la ao Centro de Valorização da Vida (CVV), telefone 141, ou pelo www.cvv.org.br » Procure atendimentos especializados Fontes: CVV e Napem/UFMG

Raio-X

  A estrutura da Faminas, em cujo curso de medicina foram registrados casos de autoextermínio e cujo rigor é questionado por alunos » Localizada na Avenida Cristiano Machado, na Região de Venda Nova, é uma das seis faculdades de medicina de Belo Horizonte » Credenciada pelo Ministério da Educação (MEC) em novembro de 2003 » Oferece 12 graduações (medicina, administração, biomedicina, ciências contábeis, direito, enfermagem, engenharia civil, engenharia de produção, farmácia, nutrição, pedagogia e psicologia) » Mantém 14 cursos de pós-graduação. » Vestibular primeiro semestre 2018 de medicina: inscrições abertas de setembro até dia 16 » Vagas: 90 em BH » É mantida pela Lael Varella Educação e Cultura Ltda., que mantém em Muriaé, na Zona da Mata, o Centro Universitário Unifaminas, fundado dois anos antes do câmpus de BH. Lá, são 17 bacharelados e duas licenciaturas, além de cursos de extensão e a distância, incluindo 14 de pós-graduação
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